De estrutura simples e invisíveis a olho nu, os vírus são agentes infecciosos capazes de promover grandes estragos à saúde. Quando acometem gestantes, os danos podem atingir o bebê, promovendo sequelas muitas vezes irreversíveis. Pouco conhecido até alguns anos atrás, o citomegalovírus (CMV) tem recebido atenção especial de cientistas e médicos. Um estudo recente publicado no Archives of Otolaryngology-Head and Neck Surgery, ligado ao Jornal da Associação Médica Americana (Jama), reforçou que a infecção congênita pelo CMV é uma das principais causas de perda auditiva na infância. O trabalho detectou que 9,9% dos bebês norte-americanos com essa deficiência tiveram contato com o CMV na fase embrionária ou fetal. Algumas crianças mostram comprometimentos mais graves.
Estima-se que cerca de 1% dos bebês nasçam com citomegalovirose congênita — infecção provocada pelo CMV. A maioria dos bebês contaminados com esse agente não apresenta sintomas ao nascer. Em alguns casos, porém, não há aparentes complicações, mas meses ou anos mais tarde surgem sequelas. O citomegalovírus é um vírus comum. A infecção por ele é, geralmente, inofensiva e não apresenta manifestações para grande parte dos indivíduos. Pelo menos 50% das mulheres contam com anticorpos para o citomegalovírus antes da gravidez, o que significa que elas já haviam sido previamente infectadas.
No entanto, de acordo com Aparecida Yulie Yamamoto, médica e pesquisadora do Departamento de Puericultura e Pediatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), em situações em que o sistema imunológico fica debilitado, o vírus pode “acordar”, provocando a chamada infecção recorrente. Por isso, o perigo de transmissão ao bebê durante a gestação ocorre em duas situações: mediante uma infecção primária ou quando a mulher tem o vírus e ele é reativado. “Infelizmente, não existe vacina para prevenir o CMV. A infecção recorrente é atípica, mas pode sim surpreender a gestante, abrindo portas para a transmissão ao feto”, lamenta.
A pesquisadora da USP explica que, no Brasil, essa infecção representa um problema de saúde pública pelas consequências tardias à criança infectada. “Entre elas, está justamente a perda auditiva neurosensorial de causa não genética. Estudos feitos em Ribeirão Preto apontam que, das crianças infectadas congenitamente nessa região, 11,8% apresentaram deficiência moderada ou profunda na audição”, diz.
Os danos, contudo, podem ir além da surdez parcial ou total. Há 18 anos, durante sua primeira gestação, a professora Elen Regina Moraes, 45 anos, estranhou o resultado positivo para o CMV em um exame no segundo trimestre da gravidez. Preocupada, procurou o médico que a acompanhava, mas o obstetra não deu importância ao fato e disse que se tratava de um vírus parecido com o da gripe. Quando o bebê nasceu, passou pelos exames pediátricos normais e nada foi detectado. “Como Yuri era uma criança muito irritada e chorona, comecei a desconfiar que poderia haver algo errado. Aos três meses, soube que ele era surdo e praticamente cego”, conta. A criança também teve atrofia óssea e comprometimento neurológico. Os primeiros passinhos foram dados somente com 3 anos.
A pediatra do Hospital Anchieta Mariana Palhares Temer ressalta que é fundamental que o bebê cuja mãe foi infectada pelo CMV na gestação tenha um acompanhamento atento desde a fase uterina. Ao nascer, a criança pode ter problemas como alterações de pele, fígado e baço aumentados, microcefalia e alterações no sistema nervoso central — que levam à surdez, à cegueira e até a um certo grau de retardo mental. Quanto antes forem detectados os danos, melhor. “A sequela adquirida não é reversível, mas o diagnóstico precoce impede o avanço do mal. Mães que tiveram a infecção por CMV devem ter o parto em uma maternidade que assista bem a criança, que conte com UTI neonatal e capacidade para exames laboratoriais e radiológicos”, aconselha.
A médica afirma que muitas gestantes julgam que, se não há o que fazer para evitar a contaminação do bebê, de nada adiantam os exames que indicam a infecção desse vírus. “Essa ideia é equivocada. Quando sabemos da contaminação, estamos cientes das possibilidades dos danos e isso faz muita diferença”, avalia.
Ao planejar um irmão para Yuri, Elen e o marido procuraram um obstetra especialista em gestação de risco. O menos provável acabou acontecendo: o vírus foi reativado durante a segunda gestação. “Ficamos quatro dias no hospital depois do parto para fazer todos os exames que pudessem apontar qualquer vestígio de sequelas. Quando o médico falou que Saulo teve apenas uma perda auditiva, nós comemoramos”, diz Elen. O otorrinolaringologista Luciano Freitas acrescenta que o teste da orelhinha é fundamental e que os pais devem exigir que ele seja feito o quanto antes. “Detectado o problema, indicamos próteses ou, dependendo do grau da perda auditiva, intervimos cirurgicamente com implante coclear, para que a criança possa ser estimulada devidamente e tenha desenvolvimento psicomental compatível com a idade dela”, detalha.
Amamentação
Independentemente do tipo de infecção pelo CMV que venha a acometer a gestante, a amamentação não é comprometida. As mães acometidas pelo citomegalovírus podem amamentar sem oferecer risco de contaminação à criança. Os médicos ressaltam ainda a importância do cartão de gestante, um registro da história da gestação. Os exames feitos no decorrer desse período também devem ser levados a sério. A ginecologista obstetra Raquel Armond lembra que o CMV pode causar malformações e morte fetal. Ultrassons e ecografias podem ajudar a detectar tais problemas. “É importante que a mulher coloque em dia o cartão de vacinação antes de engravidar. Para o citomegalovírus não há vacinas, mas para outras doenças virais igualmente perigosas, como a rubéola e a hepatite B, há”, detalha.
Nas duas gestações, a administradora de empresas Ságora Siqueira Doudement, 34 anos, fez um pré-natal cuidadoso. Os exames sorológicos que detectam os vírus perigosos na gestação foram feitos nos três trimestres gestacionais e ela passou por pelo menos quatro ecografias para confirmar se o pequeno Guilherme, que nasceu em 28 de fevereiro, estava bem. “Ainda não estávamos planejando essa gravidez, mas qualquer mulher em idade reprodutiva deve estar com o cartão de vacinação em dia”, lembra. Ságora comenta sobre a importância de cuidados com a alimentação e o manuseio de carnes. “Evitei as cruas e mal cozidas, por conta da toxoplasmose, doença que também afeta o feto de forma severa. Deu certo, Guilherme nasceu saudável e lindo”, comemora.
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